A SindiUSFB manifesta repúdio à Nota Oficial publicada pela Reitoria da UFSB no último sábado, dia 29 de agosto de 2026, em relação a vídeos produzidos e publicados pelo grupo de pesquisa LABTERASS – Laboratório de Estudos sobre Territorialidades, Subjetividade e Saúde. A nota apresenta um discurso que, adotando o tom de isenção e neutralidade, reforça a marginalização histórica dos grupos vulnerabilizados e oprimidos pela e pelo neoliberalismo e ataca a credibilidade de docentes e outras pessoas pertencentes a um grupo de pesquisa e extensão da UFSB.

Historicamente, até onde temos conhecimento, a Reitoria da UFSB nunca se manifestou em relação a nenhum conteúdo veiculado pela comunidade acadêmica apresentando resultados de pesquisa ou extensão. Assim, não foi imparcial a decisão de manifestar-se, especificamente, em relação vídeos que apresentam relatos de lideranças de uma comunidade quilombola em relação à pulverização ilegal de agrotóxicos em seu território. 

Também repudiamos a nota no que diz respeito à desqualificação da metodologia e dos resultados do trabalho, que fica subentendida ao se apresentar, como “contexto responsável” para “a geração de conhecimento científico para a proteção e o desenvolvimento dos territórios do Sul e Extremo Sul da Bahia”, o “escrutínio científico, metodológico, qualitativo ou quantitativo e, quando necessário, pelo comitê de ética”, que resultaria “na produção de evidências sólidas, imparciais e cientificamente validadas”. Além de permitir o entendimento equivocado de que o trabalho do LABTERRASS não seguiria esses parâmetros, é importante destacar que esses termos aludem ao viés epistemológico colonial e eurocentrado, que acredita em evidências “imparciais”. A ciência nunca é neutra: a escolha de temas e de metodologias é sempre marcada pela subjetividade do(a) pesquisador(a), que, por sua vez, é construída socialmente pela cultura em que está inserido(a). Ao assumir uma pretensa imparcialidade, a Reitoria está afirmando que o “normal”, o “imparcial”, o “neutro” é oseu próprio modo de entender o que é ciência, e que, nesse caso, desconsidera as comunidades às quais a UFSB tem por propósito servir. 

O LABTERRAS tem realizado trabalhos de pesquisa e extensão com seriedade, compromisso social e buscando dar visibilidade para comunidades indígenas, quilombolas, coletivos como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entre outros relacionados a trabalhadoras e trabalhadores do campo. Essa linha de atuação se alinha com a razão de ser da UFSB, definida em sua Carta de Fundação, e que prevê a promoção do pensamento crítico-reflexivo nos diversos saberes e práticas, visando ao desenvolvimento humano com ética, sustentabilidade e justiça; responsabilidade social e ambiental; intercâmbio com organizações e movimentos da sociedade; e, especialmente, fomento à paz, equidade, solidariedade e aproximação entre gerações, povos, culturas e nações, contrapondo-se a toda e qualquer forma de violência, preconceito, intolerância e discriminação. 

As pesquisas realizadas pelo LABTERRASS contam com respaldo da UFSB, comprovados pela aprovação dos projetos pela Congregação da Unidade Acadêmica, pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da UFSB, bem como pelo emprego de recursos da universidade, a exemplo de bolsas, transporte, entre outros. Logo, é legítimo e, inclusive, exigido pelos editais que o grupo use a identidade visual da instituição em que as ações se desenvolvem.

Assim, manifestamos que, embora o posicionamento oficial da Reitoria da UFSB precise passar por deliberações no Conselho Universitário, que, por sua vez, precisam estar democraticamente respaldadas na consulta a outras instâncias deliberativas e às categorias que compõem a comunidade acadêmica, a universidade é muito maior que seu corpo dirigente: é constituída por discentes, servidoras(es) técnico-administrativas(os), docentes e funcionárias(os) terceirizadas(os), além da participação expressiva da comunidade externa.

A SindiUFSB, seção sindical do Andes - SN, reafirma seu compromisso com a classe trabalhadora, com os movimentos sociais que lutam pela reforma agrária, com a luta antirracista, com as comunidades tradicionais e, especialmente, com os direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores docentes, que precisam ter respeitada a sua autonomia acadêmica. Estaremos atentas(os) em relação a qualquer forma de constrangimento que venha a ser praticada em relação a docentes, e a qualquer forma de desqualificação da legitimidade de suas pesquisas e atividades extensionistas.

Também estamos atentas(os) a possíveis conflitos de interesses que podem estar envolvidos em manifestações oficiais, como essa Nota, e reafirmamos que iremos atuar de forma proativa para evidenciar estes possíveis conflitos além de, oportunamente, buscar por reparação.

Estamos à disposição de quaisquer docentes que se sintam intimidadas(os) por defender os direitos da classe trabalhadora. Também estamos à disposição da gestão da universidade para construir um diálogo sobre as formas de apoio aos movimentos sociais e às comunidades tradicionais de nosso território.



Itabuna, Porto Seguro, Teixeira de Freitas e Jequié, 31 de agosto de 2026.

Diretoria da SindiUFSB